terça-feira, 10 de agosto de 2010
Privatizando a democracia
Publicada hoje na Folha de S.Paulo a notícia dando conta de que a Prefeitura de S.Paulo pretende contratar auditoria externa para fiscalizar as contas das Organizações Sociais de Saúde ( forma eufemística de nomear a privatização da saúde pública ). O fato expõe, mais uma vez, a forma de pensamento e ação da direita conservadora que tenta se travestir como transparente. A forma democrática de gestão pressupõe, entre outros atributos, o respeito à Carta Magna e às leis federais, bem como os princípios e ordenamentos das instituições do poider público. A constituição brasileira estabelece a participação da comunidade na gestão da saúde pública; a lei 8142 estabelece os conselhos de saúde em cada esfera de governo, e a resolução 333 do conselho nacional de saúde pormenoriza e regulamenta a ação desses conselhos, dando-lhes poderes para ordenar a contratação de auditoria independente, quando assim entenderem necessário. O ministério da saúde possui, em sua estrutura, o DENASUS, e as secretarias de saúde estaduais e municipais (grandes municípios) são obrigadas a ter auditoria própria. Mas a demotucanocracia massacrou o conselho municipal de saúde de S.Paulo, sob o silêncio da sociedade conservadora paulistana, sob o silêncio das instituições e da imprensa. Agora, a demotucanocracia quer rasgar de vez a democracia na gestão de saúde, privatizando de vez o sagrado direito do controle social sobre a saúde.
Sobre a matéria em si, há uma imprecisão. Ao contráio do que se pensa e do que se divulga, as OSS não estão livres do processo licitatório para aquisição de bens e serviços que serão prestados ao público, embora possam conduzir a administração com mais "agilidade" por que conduzem o processo em âmbito privativo. Por outro lado, a contratação de médicos, enfermeiros, dentistas, e outros prestadores diretos e contínuos de serviço fora da administração direta e sem o devido concurso público (art. 37 CF) vem sendo considerado ilegal e inconstitucional pelos tribunais, o que á mais do que lógico desde que feita a mais mediana leitura da lei.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
FHC, IMPOSTOS E LINGUÍSTICA
A afirmação de FHC publicada no CLIQUEABC de 05 de agosto corrente, onde diz que "todo imposto é ruim, senão não se chamaria imposto", é, seguramente, das mais infelizes. De fato, na nossa língua e cultura, com forte herança inquisitorial, patrimonialista, coronelista, paternalista - as que o ex-presidente parece ainda estar ligado - aquilo que é a mais pura e verdadeira substância da vida em sociedade democrática tem mesmo este nome feio. Mas justamente pela herança cultural e política arcaica. Nesta visão, essa substância fundamental pode ser mantida e cultivada como moeda de discurso populista e desqualificado. Na cultura americana, por exemplo, o nome (em inglês) é tax (ou simplesmente taxa), Particularmente, não acho imposto ruim, embora concorde que a estrutura tributária do Brasil tem muito a evoluir na sua forma. Sempre insisto na tese de que o nosso país tem muito a crescer em suas estruturas de estado - educação, sáude, justiça, segurança, etc. - e isto só se faz com a arrecadação de um lado e as estratégias de governo de outro. Assim, aquilo que em nossa cultura é tratado como imposição, na cultura democrática civilizatória representa tão somente uma condição, cujo nome e discriminação deve ter a finalidade de informar o cidadão de sua própria condição, conscientizando-o permanentemente do seu papel como agente social, papel este aparentemente rejeitado pelo ilustre professor doutor.
NELSON NISENBAUM
terça-feira, 6 de julho de 2010
GAZA NÃO É O INFERNO QUE DIZEM
Apesar de todas as mudanças que o mundo sofreu nos últimos 100 anos, principalmente no tocante ao campo do conhecimento, da informação e do uso que se faz deles, permanece a sensação - e talvez mesmo o fato - de como é fácil construir-se uma história orientada a convencer leitores de alguma coisa. Uma das histórias mais bem construídas, um sucesso indiscutível de mídia, é a da vitimização do povo palestino. É verdade sim, que há palestinos vitimizados, e das formas mais cruéis e desumanas possíveis, mas certamente são minoria, e seus verdadeiros algozes não são aqueles tradicionalmente responsabilizados por essa tragédia.
A matéria publicada no IG, com origem na BBC, copiada abaixo da origem por mim mesmo, nos dá conta de uma verdadeira explosão demográfica exemplificada pela vida de um simplório e feliz cidadão, que evidentemente só pode ter atingido tal feito em um ambiente que poderia ser chamado de tudo, menos de miserável, oprimido, vitimizado, ou assim por diante. Os números revelados pelo presidente da Síria, que alega ter 500.000 refugiados em seu território, mostram uma outra conspícua face do fenômeno. Outros países alegam ter tantos outros refugiados, que devem ser somados à atual população palestina residente, de aproximadamente 4 milhões de pessoas. Em síntese, de absoluta minoria há cerca de 50 anos, entre residentes e refugiados, já temos um formidável contingente humano que se multiplicou em progressão geométrica. Em números tidos como oficiais, a população de Gaza cresce a 5% ao ano. Grosseiramente, algo próximo à metade ou mais das mulheres em idade fértil estão grávidas constantemente.
Um dado - embora sem significância estatística, mas suficiente para instigar o intelecto em qualquer espectro - revela-nos uma outra verdade, que pode evidenciar a fragilidade dos argumentos dos "fabricantes de vítimas". O valente reprodutor relata que perdeu 5 membros da família em conflitos com Israel. Mas perdeu 10 membros em conflitos internos da palestina, que ele mesmo admite textualmente temer mais do que a Israel.
Ainda que reconheçamos a singularidade da situação e do indivíduo, penso restarem poucas dúvidas de que ele é talvez o mais bem sucedido de seu meio, mas é também fruto deste meio, onde deve ter diversos competidores, em um sentido mais frio. De qualquer forma, o estudo matemático e econômico deste retrato revela com relativa facilidade que a vida no mundo palestino não deve ser aquela retratada pelas grandes mídias e tão ferozmente propaladas por diversos segmentos formadores de opinião, a menos que desprezemos os mais comezinhos princípios das citadas ciências, além, é claro, daquela com a qual tenho mais intimidade, a medicina. Algo me diz tratar-se de um povo muito saudável, por sinal. E que D'us os proteja de seus verdadeiros inimigos.
NELSON NISENBAUM
S.Bernardo do Campo, 5 de julho de 2010.
VEJAM A MATÉRIA ABAIXO
Filho único queria família grande e já tem 30 filhos e 430 netos
Abu Talal, de 82 anos, já viveu com 11 mulheres diferentes ao longo da vida
selo
Ao dirigir por uma rua cheia de poeira e buracos no sul de Gaza para conhecer um dos amantes mais férteis do território, nós nos perdemos. Paramos para perguntar o caminho certo.
"Você conhece a casa de Abu Talal?", eu gritei para fora da janela do carro para um jovem menino na beira da estrada. "Sim, ele é meu avô", respondeu o garoto.
Você pode estar pensando que esta foi uma grande coincidência - até saber que Abu Talal al-Najar, de 82 anos, tem mais de 430 netos. Ele também tem 30 filhos e viveu com 11 mulheres diferentes ao longo dos anos. Atualmente, ele tem apenas quatro.
Uma lenda
Abu Talal (de gorro), com alguns de seus netos
A lei em Gaza, assim como a lei religiosa Sharia estipulada pelo Corão, diz que o número máximo de mulheres que um homem pode ter ao mesmo tempo é quatro. Porém, é bastante incomum os homens de Gaza terem mais de uma mulher.
Chegando a sua casa, uma estrutura semi-acabada próxima à cidade de Khan Younis, encontramos Abu Talal ajoelhado no canto do quintal, virado para o leste e rezando. Ele se curvou, colocando sua testa no chão, seus braços esticados no tradicional ritual - ainda flexível mesmo aos 82 anos.
Após vários minutos ele se levantou para nos cumprimentar, uma figura robusta, parecida com um touro, com um largo sorriso e um aperto de mão firme.
Abu Talal é uma espécie de lenda no sul de Gaza. Com seu monte de filhos (outros 11 morreram ao longo dos anos) ele criou uma das maiores famílias da região.
Um 'hobby'
"Eu era filho único", ele me contou. "Então eu queria uma família grande - além disso, acabou simplesmente virando um hobby", ele brinca. O filho mais novo do octogenário tem apenas dois anos de idade.
Com a ajuda de alguns de seus netos, ele consegue se lembrar dos nomes dos filhos que sobreviveram, 17 meninas e 13 meninos. "Toda vez que uma criança nasce nesta família nós sacrificamos uma cabra para comemorar", disse Abu Talal. Más notícias se você é uma cabra em Gaza, eu sugiro.
A população de Gaza está crescendo a uma taxa anual de 5%. Cerca de 1,5 milhão de pessoas vive espremida em uma faixa de terra de 40 quilômetros de comprimento por 12 de largura.
Muitas pessoas vivem na pobreza, com índices de desemprego por volta de 40%, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU).
Abu Talal não se preocupa em trazer crianças a um mundo como este? "Não, porque se eu perder 200 dos meus netos, eu ainda vou ter outros 200".
Luta palestina
Pelo menos cinco integrantes de sua família foram mortos no último grande conflito com Israel, em janeiro do ano passado, em que a ONU estima que cerca de 1,4 mil palestinos e 13 israelenses foram mortos. Abu Talal também perdeu 10 integrantes da família durante o conflito entre o Fatah e o Hamas em 2007.
O movimento islâmico Hamas assumiu o controle da Faixa de Gaza após expulsar seus rivais seculares, o Fatah, do território. Antes disso, o Hamas havia vencido as eleições parlamentares, realizadas em 2006.
Abu Talal nasceu em Gaza em 1928 durante o Mandato Britânico da Palestina. "Os britânicos eram ruins. Os israelenses eram piores, mas o maior perigo para os meus filhos agora é o desentendimento contínuo entre o Fatah e o Hamas - palestinos lutando entre si", diz Abu Talal.
Ele teve 11 mulheres durante sua vida. Algumas delas morreram e alguns casamentos terminaram em divórcio. Sua mulher atual mais jovem é cerca de 50 anos mais nova do que ele.
Perguntado se o pai de 30 encerrou seus trabalhos, ele ri: "Eu ainda acho que conseguiria fazer outros 10 a 15 filhos".
terça-feira, 22 de junho de 2010
GOLAÇO DO DUNGA
Qual a razão dessa súbita mudança de comportamento ?
Vamos aos fatos :
Segunda feira, véspera do jogo de estréia da seleção brasileira contra a Coréia do Norte, por volta de 11 horas da manhã, hora local na África do Sul.
Eis que de repente, aportam na entrada da concentração do Brasil, dona Fátima Bernardes, toda-poderosa Primeira Dama do jornalismo televisivo, acompanhada do repórter Tino Marcos e mais uma equipe completa de filmagem, iluminação etc.
Indagada pelo chefe de segurança do que se tratava, a dominadora esposa do chefão William Bonner sentenciou :
“ Estamos aqui para fazer uma REPORTAGEM EXCLUSIVA para a TV Globo, com o treinador e alguns jogadores...”
Comunicado do fato, o técnico Dunga, PESSOALMENTE dirigiu-se ao portão e após ouvir da sra. Fátima o mesmo blá-blá-blá, foi incisivo, curto e grosso, como convém a uma pessoa da sua formação.
“ Me desculpe, minha senhora, mas aqui não tem essa de “REPORTAGEM EXCLUSIVA” para a rede Globo. Ou a gente fala pra todas as emissoras de TV ou não fala pra nenhuma...”
Brilhante !!! Pela vez primeira em mais de 40 anos, um brasileiro peitava publicamente a Vênus Platinada !!!
“ Mas... prosseguiu dona Fátima - esse acordo foi feito ontem entre o Renato ( Maurício Prado, chefe de redação de Esportes de O Globo ) e o Presidente Ricardo Teixeira. Tenho autorização para realizar a matéria”.
- “ Não tem autorização nem meia autorização, aqui nesse espaço eu é que resolvo o que é melhor para a minha equipe. E com licença que eu tenho mais o que fazer. E pode mandar dizer pro Ricardo (Teixeira ) que se ele quer insistir com isso, eu entrego o cargo agora mesmo!”
O treinador então virou as costas para a supra sumo do pedantismo e saiu sem ao menos se despedir.
Dunga pode até perder a classificação, a Copa, seu time pode até tomar uma goleada, mas sua atitude passa à história como um exemplo de coragem e independência.
Dunga, simplesmente, mandou na Vênus Platinada! Uma estátua para ele!!!
Fonte: http://botafogoemdebate.
sábado, 22 de maio de 2010
VACINA, SOCIOLOGIA E POLÍTICA
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| Estadao.com.br | O Estado de S.Paulo | Jornal da Tarde | Agê |
segunda-feira, 17 de maio de 2010
GÁS METANO NO TRIBUNAL
NELSON NISENBAUM
segunda-feira, 12 de abril de 2010
NOVA ÉTICA, PESSOAS VELHAS.
Com grande alarde e espetáculo anuncia-se o novo código de ética médica, trazendo à tona, por meio de reportagens, as grandes angústias da sociedade em relação a este bem tão complexo chamado medicina. Li e reli algumas vezes o novo código, confrontando-o com o anterior, e confrontando-me com a experiência de quase 6 anos que estive frente à Delegacia Regional do CREMESP em S.Bernardo do Campo e Diadema. O código anterior não era ruim. Pelo contrário, era um código que em relação ao que o precedeu fazia um sensível movimento em direção às causas da sociedade, inspirado por um olhar solidário, humanístico, voltado aos interesses dos doentes. Seus termos eram abrangentes, simples, concisos e conceituais. Um belo código. Nem por isso, as angústias da sociedade foram mitigadas, pelo que se viu nas reportagens apresentadas sobre o assunto. O novo código preserva a maioria dos princípios do anterior, inovando apenas na explicitação de certas normas que eram implícitas, mas bem presentes. O que não foi colocado em discussão com a sociedade foi justamente a estrutura dos conselhos que irão "administrar" o novo código, que serão exatamente os mesmos de sempre. Ou seja, os "operadores" da "nova" ética serão os mesmos, bem como seu modus operandi. Em outras palavras, o mesmo sistema que não conseguiu fazer valer o código anterior - a se julgar pelo conteúdo das matérias referentes ao tema apresentadas pela mídia - quer dizer à sociedade que o fará pelo novo código. Respeitosamente discordo. Como médico atuante há 25 anos, tanto no setor público como no privado, e em diversas instâncias da política médica, posso assegurar que tudo isso não passa de espetáculo, que pode ter um efeito contrário: A ampla divulgação de fatos incorretamente tidos como novos, pode ensejar uma nova avalanche de denúncias e processos nos já atolados conselhos, que em alguns casos tem levado quase uma década até as decisões. O que não foi mudado é o feudalismo que norteia as relações políticas que sustentam certos grupos nos conselhos, que há duas décadas não tem renovação, como no exemplo do estado de S.Paulo, onde o poder econômico-financeiro decide as eleições, sem qualquer fiscalização por parte das instituições democráticas da sociedade.
Não se muda uma sociedade através de códigos; os atos das pessoas investidas de poder é que o fazem - se assim quiserem. Códigos apenas dão formalidade ao que já está estabelecido. No caso da prática médica, pelo menos do ponto de vista da sociedade, quase nada mudará com este código. Ou, melhor dizendo, a parte que pode mudar interessa a parcelas muito pequenas, não significativas ante aos grandes dramas e questões apresentadas pela mídia, que teoricamente eram tão bem atendidas pelo código anterior.
NELSON NISENBAUM


